A Menina Submersa: Memórias

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Título original: The Drowning Girl: Memories

Autora: Caitlín R. Kiernan

Editora: Darkside

Páginas: 320

Lançamento: Edição brochura – 2014, edição capa dura (edição de colecionador) – 2015

Gênero: Literatura Estrangeira, Ficção Científica

Tradutoras: Ana Resende e Carolina Caires Coelho

 

“Um mergulho em uma mente perturbada e uma história assombrosa.”

Essa pode ser uma boa definição sobre esta obra.

Essa é uma das resenhas mais difíceis que tive que fazer. Não por conta do tema, do tempo, ou por ser de difícil compreensão, mas sim, por ter tantos aspectos diferentes, tantas variáveis e possibilidades que fica difícil contar apenas uma parte da história sem tirar do leitor, a magia de descobrir por si mesmo, os encantos dessa obra. Por isso, não vou te contar a história, mas sim, tentar mostrar sua beleza.

Caitlín nos surpreende com o ritmo da leitura, apesar de em certos momentos parecer presa e cansativa, mas nada que tire o foco da narrativa. A escrita da autora é bem diferente do que estamos acostumados a ler. Ela nos trás uma narrativa não-linear, que, por vezes, nos deixa confusos e meio “loucos”. Você vai entrar em um livro dentro de outro livro.  Não confie na sinopse. Ela te engana e não te prepara em nada para o que você vai encontrar nas 320 páginas seguintes.

“Vou escrever uma história de fantasmas agora”, ela datilografou.

“Uma história de fantasmas com uma sereia e um lobo”, datilografou mais uma vez.

São com essas palavras que Caitlín R. Kiernan inicia o seu canto da seria e nos arrasta de forma arrebatadora para A Menina Submersa: Memórias, lançado em 2014 no Brasil pela Editora Darkside Books, que em pouco tempo tornou-se uma de minhas editoras favoritas pelo trabalho de arte incrível que desenvolve em seus produtos.  Embora pouco conhecida em nosso país, Caitlín possui uma carreira premiada por seu trabalho em literatura, tanto como romancista como também como quadrinista. Suas conquistas recentes são os prêmios do Bran Stoker Awards de 2012, com A Menina Submersa: Memórias, e o do ano seguinte com a Graphic Novel Alabaster: Wolves. Nascida em 26 de maio de 1964, essa irlandesa já publicou 11 romances e, como quadrinista, participou, dentre outros projetos, da criação de , spin-off do cultuado quadrinho adulto Sandman. Ou seja, ela é incrível no que faz e fora do comum, o que a faz merecer nossa atenção.

                                                     A Menina, em versão capa dura. Uma verdadeira obra de arte. *_*

India Morgan Phelps, a Imp, nos conta a sua história. Filha e neta de suicidas, ela enfrenta o mesmo mal que atingiu sua mãe e sua avó: a esquizofrenia. Ela se mantém “sã” e sob controle com remédios e terapia, entretanto, não é uma fonte muito confiável para os acontecimentos que serão narrados. Mas é a única fonte que temos.

Essa obra é uma história diferente. Lugares assustadores podem existir em nosso subconsciente. Por vezes, a mente perturbada de Imp te leva a esquinas  assustadoras. Como ela mesma diz, o que mais tememos não é o conhecido, afinal de contas “podemos reagir ao conhecido (…) mas o desconhecido desliza através de nossos dedos, tão insubstancial quanto o nevoeiro”.

                                   Fecunda Ratis – Albert Perrault (por Matthew Jaffe)

Outro ponto interessante são as relações homoafetivas, bastante presentes na obra, o que a torna ainda mais peculiar. Imp e Abalyn são namoradas, e o relacionamento das duas é encantador e foi bem desenvolvido na trama. A parceira de Imp suporta todas suas loucuras e crises e a ajuda em momentos de dificuldades, o que trouxe à trama uma sensibilidade a mais para uma história tão diferente e tocante. E mais: Abalyn é, na verdade, uma transexual, assim como a própria autora. Chocante, não?

O livro é tão repleto de referências, e elas são construídas de forma tão rica, que nos perdemos, assim como Imp, no que é real e o que é fantasia. Há muitas citações a grandes escritores, como Virginia Woolf, Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft.

Providence, onde se passa a história, me chamou a atenção por ser a cidade de  H. P. Lovecraft. Na verdade, logo na primeira página do livro, Imp fala no Hospital Butler, em frente ao Cemitério Swan Point. Lovecraft passou um tempo internado nesse hospital quando sua família suspeitou de que ele possuísse algum problema mental por conta de seus pesadelos. Além disso, foi no Cemitério Swan Point que o autor foi enterrado.

H. P. Lovecraft (1890 – 1937), um escritor recluso aqui em Providence (e de quem sou parente distante) escreveu: ‘A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo mais antigo e mais forte de medo é o temor do desconhecido’.

Referências a sombrias histórias reais, como o assassinato da Dália Negra e a Floresta dos Suicidas no Japão, também servem de base de apoio na construção de A Menina Submersa. No entanto, Philip George Saltonstall e Albert Perrault e seus quadros tão impactantes, A Menina Submersa e Fecunda Ratis, são invenções de Caitlín R. Kiernan. Mas a descrição dos artistas e suas obras são tão impressionantes que é quase impossível não fazer uma busca para tentar descobrir mais sobre eles.

                          A Menina Submersa – Philip George Saltonstall (por Michael Zulli)

Dizer que o livro é intenso é pouco. Então, eu digo: “É denso, intenso, tenso, confuso, diferente, surreal. Uma ficção psicológica. É sincero, original e tem uma história de amor, ainda que não seja romântico e fofo”.

Para todos os que gostam de autores como Neil Gaiman, H. P. Lovecraft e Edgar Allan Poe, Caitlín R. Kiernan apresenta realmente um trabalho fenomenal, que a coloca entre grandes autores da fantasia urbana/ficção científica da atualidade.

Ah, e o livro tem uma playlist também. Várias músicas e artistas são citados ao longo da trama. Se você ficou curioso e adora trilha sonora, assim com eu, dá o play:

 

Um comentário em “A Menina Submersa: Memórias

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