Resenha: O harém de Kadafi – Annick Cojean

Olá, pessoas. Pensei muito sobre a obra que iria apresentar a vocês e escolhi esse título por ser um livro impactante, por mostrar a realidade,  a crueldade humana e nos tirar da zona de conforto, nos fazer pensar sobre o mundo e em como podemos ser fortes.

Resenha

A primeira impressão que tive após ler a última frase desse livro foi: que mundo é esse?

Soraya tinha apenas quinze anos quando Muamar Kadafi foi visitar a escola onde ela estudava. No momento em que ela lhe estendeu um buquê de flores, ele colocou a mão na cabeça da menina e acariciou seus cabelos. Era o gesto secreto que sinalizava a suas guarda-costas que ele a havia escolhido

Essa não é uma história fácil. Não é um conto de fadas e, tampouco, um romance. É um soco no estômago.

É um relato chocante do reinado de terror de Muamar Kadafi e, ao mesmo tempo, uma análise sensível do destino das mulheres que tornaram-se vítimas desse sistema. A jornalista Annick Cojean arriscou sua vida ao ir a Trípoli investigar essa história e dar voz a Soraya e inúmeras outras mulheres que tiveram o mesmo destino que ela durante anos: o abuso sexual, espancamentos, a imposição do consumo de drogas e álcool, o sofrimento solitário e mudo. Annick encontra uma Líbia onde a sociedade é hipócrita e decadente, dilacerada pela prostituição, pela corrupção, pelo terror, por estupros e assassinatos.

Nesta obra, Annick revela aspectos cruéis e pouco conhecidos desse governo – um governo que girava em torno da satisfação pessoal e realização dos desejos mais pervertidos e sórdidos de seu tirano. Um governo que raptava, escondia e escravizava sexualmente crianças e jovens líbias. Que chegou até mesmo sequestrar as mulheres em suas próprias cerimônias de casamento. Um líder que alegava ser o grande emancipador das mulheres no mundo árabe e, na realidade, abusou delas em grande escala, desde a tomada do poder até sua queda.

Muamar Kadafi é um nome que milhares de pessoas desejam jamais ter conhecido. Por mais de 40 anos, ele foi o ditador da Líbia, conhecido como O Guia, o homem que levaria seu país à glória e iluminação espiritual. Foram décadas de abusos e selvageria veladas por trás de uma imagem falsa e manipulada para a imprensa. Uma camuflagem perfeita que contou com ajuda de pessoas ilustres e também de mulheres, as Amazonas, falsas guardas-costas que não passavam de mulheres abusadas e prisioneiras para suas loucuras sexuais. Kadafi era um louco, e ele não apenas abusava, mas fazia de forma sádica e maluca, machucando profundamente ao ponto de quase matar suas ”mulheres”.

Mas o livro também revela o abuso sexual e humilhação de homens. Kadafi usava o sexo para subjugar a todos, para humilhar a todos e conseguir manter o poder. Muitas mulheres foram estupradas para não ver seus maridos e filhos morrerem. Homens foram estuprados na frente de suas famílias para que fizessem o que o ditador queria.

Soraya nos conta sua história desde a infância, a discriminação que sofria por ter mãe estrangeira e dona do próprio negócio, sobre o pai afetuoso, o relacionamento com seus irmãos e o sonho de se tornar médica, de salvar vidas. Conta como era a vida num país onde tudo era restrito, proibido ou contra a vontade de Alá. Sua vida termina quando o momento que ela pensava ser uma honra -entregar presentes ao Guia- se torna um pesadelo e ela é sequestrada pelas Amazonas e entregue ao ditador.

“Mabruka chegou com uma cara de poucos amigos e me empurrou brutalmente para dentro do quarto, fechando a porta atrás de mim. Ele estava nu. Deitado em uma cama imensa com lençóis bege (…)- Vem aqui, minha puta! – disse ele, abrindo os braços – vem, não precisa ter medo! Medo? Eu estava muito além do medo. Sentia-me num abatedouro.” pág. 42

Inimaginável o terror desse momento para uma jovem de 15 anos, que nunca beijou um homem, nunca teve um namorado, que não conhece nem mesmo seu corpo, ser desvirginada de forma tão brutal. Iniciava ali, o trauma e horror que ela carregaria por toda a vida. Se aqui no Brasil já é difícil ser vítima de abuso sexual, ainda há vergonha em denunciar esses casos, imaginem num pais tão atrasado, onde a mulher vitimada perde tudo naquele momento: família, casa, dignidade. Elas nunca poderão denunciar o fato sem serem culpabilizadas, e para a família, elas são impuras e só a sua morte pode lavar a honra da família. Não importa a dor delas, só a honra da família.

”Se o estrupo de uma jovem causa a desonra de sua família como um todo, em especial a dos homens, a violação de milhares de mulheres pelo antigo dirigente do país só poderia suscitar a desonra de toda a nação. Ideia dolorosa demais.” pág. 219

Em O harém de Kadafi, Annick Cojean possibilita que as vítimas contem sua história para o mundo, devolvendo um pouco de dignidade a mulheres cujas vidas foram destruídas por um monstro.

Esse livro não é para qualquer um. Ele é duro, triste, real de mais para os que ainda acreditam nos contos de fadas. O mais estranho e confuso de tudo, é pensar que isso ocorreu a pouco tempo, que enquanto dormíamos seguros em nossas casas, esse povo sofria, e ainda sofre tanto. Me fez pensar na força dessas mulheres em suportar tudo isso, sem tentar suicídio, ou tentar matar ele.

Apesar da morte do ditador, não há sentimento de felicidade ou liberdade, pois os danos que ele causou na vida das vítimas é irreparável. As lembranças dolorosas e vergonhosas as seguirão para sempre. O caminho para a Líbia democrática, moderna e livre ainda é longo, mas não impossível. Vamos torcer para que vejamos dias melhores.

O_HAREM_DE_KADAFI_1349356174PTítulo original: Les Proies- dans le harem de Kadhafi

Título traduzido: O Harém de Kadafi

Subtítulo: A História Real de Uma das Jovens Presas do Ditador da Líbia

Autor: Annick Cojean

Editora: Verus Editora

Ano: 2012          Idioma: Português
Especificações: Brochura | 236 páginas

ISBN: 978-85-7686-201-7

Peso: 330g         Dimensões: 230mm x 160mm

Gênero: Biografia / Memórias

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